Lidando com a Lua-Saturno e com o vazio que não é preenchido nunca!

 

Enquanto planeta limítrofe entre o pessoal e o transpessoal, Saturno costuma ser aquela pedra no sapato que ninguém consegue ignorar. Embora meus textos sobre Plutão, Netuno e Urano, que são planetas difíceis e desafiantes quando em contato com luminares ou planetas pessoais tanto em trânsito ou no mapa natal têm uma audiência moderada, tudo que escrevo sobre Saturno parece ser sempre atual e nunca perecer no tempo (Aliás, um dos significados de Saturno é justamente esse, ficar melhor com o tempo).

 

Assim, um dos textos que me dá mais retorno em termos de contato de leitores é um artigo que escrevi sobre as dificuldades inerentes dos aspectos entre Lua-Saturno há uns anos atrás. Os leitores me escrevem tanto para dizer que se identificam muito com tudo que está escrito ali como para pedir conselhos a respeito de como lidar com algum ser querido que possui este aspecto, ou como orientar a um filho/filha que tem o posicionamento.

 

Por essa razão, resolvi escrever este texto com recomendações gerais sobre como lidar com este aspecto.

 

Antes de mais nada, é importante mencionar que nem todas os aspectos entre Lua-Saturno são feitos iguais. Não será o mesmo ser mãe de uma filha com conjunção entre Lua e Saturno ou de uma filha com quadratura ou oposição entre Lua e Saturno. Além disso, não é o mesmo ter uma conjunção entre Lua e Saturno em Peixes ou uma conjunção entre Lua e Saturno em Capricórnio: o signo onde o aspecto ocorre modifica a qualidade da manifestação, assim como o modifica o sexo do nativo (a Lua tem representações e manifestações diferentes para homens e mulheres) e o signo solar. Essas considerações tão específicas só podem ser feitas com sucesso em uma consulta personalizada. Mas, tendo esclarecido isso, existem sim algumas orientações gerais que podemos adotar quando temos ou lidamos com alguém com este contato.

 

Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que não importa o aspecto entre Lua e Saturno (ainda que seja um trígono ou sextil), em alguma medida, haverá no nativo um sentimento de falta. A diferença entre os aspectos é que, no caso do trígono ou sextil, o nativo lidará melhor com isso do que no caso dos aspectos tensos (conjunção, quadratura e oposição). Um outro fator a ser considerado é a natureza do aspecto: se o contato é de conjunção, será mais fácil para o nativo assumir responsabilidade por aquele sentimento de “vazio” do que no caso da quadratura (onde as circunstâncias parecem nunca favorecer o preenchimento emocional) ou da oposição (onde a “culpa” é do outro que lhe falta e não lhe dá o que precisa).

 

No entanto, olhando para o mapa de fora, como um observador externo, é preciso não perder de vista que o sentimento de falta estará presente, independente de qualquer coisa que você faça ou não faça (e isso é especialmente importante para mães com filhas com esse aspecto, que ficam aterrorizadas por se sentirem responsáveis por gerar esta falta em sua cria). Aliás, mães de filhas com Lua-Saturno precisam ler este texto várias vezes, porque a Lua-Saturno por si só indica uma mãe com sentimento de culpa. Logo, não será fácil para a mãe desta nativa se desresponsabilizar pelo sentimento e pelos efeitos emocionais do aspecto.

 

[Um parêntesis (ou colchete): por que falo de mãe e filha? Porque a Lua, no mapa da mulher, tem uma relevância muito mais direta do que no mapa do homem. No mapa da mulher, ela representará a própria pessoa em suas relações mais íntimas, enquanto no mapa do homem, a energia fica projetada para as mulheres com quem ele se relaciona. Neste caso, a influência mais possível será ele buscar mulheres com os aspectos aqui descritos, provavelmente devido à influência inconsciente recebida do comportamento materno.]

 

Agora, essa falta que existe por natureza é alheia aos eventos da vida do nativo? Ou seja, ela existe apesar do nativo ter uma vida emocionalmente plena? Não, não é. Sem dúvida, este nativo teve uma infância onde foi preciso amadurecer precocemente para lidar com situações que eram muito complexas para a idade em que ocorreram. Provavelmente a mãe deste nativo será (ou terá sido) uma mãe exigente, rigorosa com regras e rotinas, ocupada, algo indisponível (emocionalmente, devido a problemas da sua própria vida, ou fisicamente, devido à trabalho), entre outras coisas que, em conjunto, favorecerão o desenvolvimento deste sentimento de ausência. Mas a questão não é essa: a questão é que não importa o quanto esta mãe dê, ou se esforce para dar, o que vai ficar registrado será tudo aquilo que ela não der. Por exemplo, suponhamos que esta mãe perdeu, em um ano, cinco entre dez apresentações escolares da filha. Ou seja, ela esteve presente em exatamente 50% das apresentações. Tenha certeza que aquelas que ela faltou ficarão registradas na alma deste nativo, ao passo que aquelas em que ela esteve presente raramente serão lembradas.

 

Mas por que isso? Porque este nativo conta com a falta. Ele não espera a presença, ele não espera o carinho, ele não espera a nutrição emocional. Ele espera a falta. E como ele tem certeza de que a falta vai chegar e que é apenas uma questão de tempo, quando ela chega, imediatamente seu cérebro lhe diz “Viu? Não falei que não dá para contar com ninguém?”. Aí entra em jogo o viés de confirmação, onde o cérebro busca no ambiente eventos que confirmam aquilo em que acredita, tornando-os relevante sobre os demais, o que reforça as suas crenças, reforçando os comportamentos e sentimentos do nativo a ela associados, gerando um ciclo. Não está em questão se dá ou não dá para contar com os outros: o que está em questão aqui é a predisposição a registrar as ausências muito mais do que as presenças. Uma forma de entender esta manifestação é compara-la a alguém com Lua-Vênus: se a Lua-Vênus for exposta às mesmas ausências da Lua-Saturno, ela provavelmente tomará estes eventos como naturais e parte da vida, sem atribuir-lhes muito valor, ao passo que Lua-Saturno os toma como uma comprovação da sua menos-valia.

 

Sim, porque esses são os sentimentos de fundo: menos-valia, baixa autoestima, pena de si mesmo, carência (muita carência) e imaturidade emocional. E o curioso é que, embora as experiências de vida de Lua-Saturno exijam dela um comportamento emocional maduro para lidar com situações difíceis da vida, mais tarde entra em jogo um tipo de compensação inconsciente que a leva a agir de maneira algo imatura por mais tempo. Por "imatura", entenda-se "dependente e carente", já que faz parte do processo de amadurecimento emocional de qualquer ser humano ser capaz de atender às próprias necessidades emocionais em algum nível, sem buscar que este preenchimento venha exclusivamente de fora. Ou seja, ela se comporta de maneira precocemente madura para fazer frente à exigências da vida em tenra idade, mas o seu verdadeiro amadurecimento emocional ocorre somente em idade “avançada”, muito depois do socialmente esperado.

 

E isso também é um consolo para as mães destes nativos, porque é muito provável que sua relação com a sua filha melhore com o passar dos anos. Conforme ela for envelhecendo, ela será capaz de apreciar outras nuances da sua experiência de vida que lhe dará uma nova perspectiva sobre as suas "ausências" e lhe permitirá  contabilizar mais do que os momentos em que você faltou. É provável que ela comece a ver as suas ausências sob a luz dos esforços que você fazia e também sob a perspectiva de suas próprias carências. Não, o sentimento de falta dela não vai passar. Provavelmente, o sentimento de pena de si mesma também não. Mas os conflitos entre vocês e o valor que ela te dá, sim, isso deve mudar e melhorar com os anos, porque ela aos poucos se tornará mais capaz de se responsabilizar por este sentimento de falta que lhe é inerente.

 

Mas isso significa que você, como mãe, não pode fazer nada a respeito para minimizar tudo isso? Claro que pode! Tenha sempre em mente que as necessidades emocionais da sua filha são muito maiores e mais profundas do que aparentam (ah, porque também tem isso: Lua-Saturno não sabe pedir! Logo, você precisará ser muito observadora, atenta e proativa para saber quando está falhando ou quando algo está faltando a ela. Ela não pede, ela só contabiliza aquilo que não vem.). Lembre-se que ela precisa mais de você e da sua atenção emocional do que qualquer outro filho. E dê um desconto a si mesma, não esquecendo que, não importa o quanto você faça, você não terá como evitar esse processo por completo.

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