A Neurociência dos Mantras: Entenda Como e Porque Eles Funcionam

 

 

Sou adepta da meditação há pelo menos dois anos e recentemente me aventurei a conhecer um pouco mais sobre os mantras. Li muito sobre a neurociência da meditação e seus impactos biológicos sobre o corpo. Impressionada com tudo que já se descobriu sobre seus benefícios no tratamento tanto de problemas corriqueiros como de doenças psiquiátricas mais sérias, esta é uma prática que, embora tenha me custado a adotar e mesmo não praticando-a sempre com a mesma frequência, não penso em abandonar.

Recentemente, no entanto, tive umas crises de ansiedade bem fortes e decidi testar alguns mantras que achei no aplicativo Insight Timer. Encontrei mantras para a ansiedade, para o medo, para a produtividade, para a cura, entre outras coisas. Escolhi um de duração aproximada de 15 minutos para o medo (que é o tempo durante o qual normalmente medito), li a descrição e decidi experimentar.

 

O mantra que escolhi (108 Chant of a Mantra on Fear) não tinha música de fundo e se resumia à repetição por 108 vezes da frase “Shante Prashante Sarva Bhaya Upasha Mani Swaha”. De acordo com Deva Vasuda, autora do mantra, seu significado se traduz como “Eu devolvo meu medo a sua fonte, a mente superior e sem forma do Universo”. Como era de se esperar, não consegui repetir a frase de cara. Mas, conforme fui ouvindo a repetição, fui capaz de repetir os sons e, embora não o tenha feito as 108 vezes, repeti várias vezes.

 

O resultado? Ao final da meditação, a minha ansiedade tinha de-sa-pa-re-ci-do. Como assim? Não pude acreditar, mas aceitei o resultado de bom grado. Fui dormir. No dia seguinte, ao acordar, a primeira coisa que fiz foi checar meu estado emocional. A ansiedade e o medo voltavam quando eu pensava sobre a questão que me deixava ansiosa? Não! Hein? Pois é, continuava livre daquele aperto sufocante no peito. Diante disso, a minha mente inquisitiva e cética não conseguiu se conformar: comecei imediatamente a pesquisar o que são e como funcionam os mantras.

 

Como membro da APA (Associação Americana de Psicologia), fui direto consultar seus bancos de dados em busca de pesquisas envolvendo mantras. Encontrei algumas, mas nada próximo ao nível de detalhes que eu buscava. Então, me rendi: fui pesquisar naquele imenso banco de dados universal que está a disposição de todos nós – a internet – em busca de maiores informações. Aqui está um resumo do que encontrei.

 

Significado e Usos

 

Hoje em dia a palavra mantra é usada com diferentes significados. Muitos a utilizam para se referir, por exemplo, a uma intenção ou desejo forte que se carrega a respeito de algo (“esse é o meu mantra”). Outros a usam para descrever qualquer palavra utilizada para tranquilizar a mente. Mas de acordo com o site psychologydictionary.org, mantra é um termo genérico usado para descrever uma sílaba, frase ou hino que se repete, e que frequentemente está relacionado a conceitos religiosos, especialmente no hinduísmo e no budismo.

 

Gosto da filosofia budista, mas entendo pouco a respeito. E do hinduísmo não entendo nada. Logo, essa explicação não me ajudou muito. Continuei a pesquisa. Encontrei que, etimologicamente, a palavra mantra é formada por duas raízes: man significaria mente e tra seria veículo ou instrumento. Logo, mantra significaria (ao pé da letra) instrumento da mente. Mas instrumento para que? Prossigo com a pesquisa.

 

Para que haja um mantra, precisamos de 3 elementos: uma palavra, um significado e um som. Esses elementos podem ser usados em conjunto ou separadamente, de acordo com o objetivo que desejamos alcançar. Se a ideia for alcançar um estado meditativo mais profundo, usamos uma sílaba ou palavra sem significado (tipo Ram), a qual repetiremos durante a meditação e que nos ajudará a “colocar a mente consciente para dormir”, dando-nos maior acesso à mente subconsciente. Como funciona? Como a palavra não tem significado para a nossa mente consciente, sua repetição a ocupa sem dar margem a devaneios, interrompendo sua constante conversa interna (envolvendo eventos passados ou preocupações futuras), o que nos permite alcançar mais facilmente o objetivo da meditação: estar no momento presente.

 

O segundo elemento dos mantras é o significado, e este não é usado sem uma frase ou palavra. Neste caso, seleciona-se uma palavra ou frase com significado conhecido para quem medita (por exemplo, “paz” ou “eu estou em paz”) para repetir durante a meditação (silenciosamente ou em voz alta), com o objetivo de recriar internamente aquele significado. Aqui trabalhamos com o simbolismo: por isso, é preciso conhecer o significado do que se repete para alcançar seus efeitos.

 

Por fim, temos o som como elemento. Diz a literatura que o som precisa do significado para entregar seu resultado, já que é a soma dos dois na palavra que cria o simbolismo. Mas a minha experiência foi diferente. Quando meditei para controlar meu medo e ansiedade, a frase que repeti era em Sânscrito e, embora eu tivesse em mente o que queria alcançar, eu não estava consciente o tempo todo do significado literal da frase. Aliás, só realmente li com atenção o significado do mantra após terminar a meditação, quando vi o resultado que tinha obtido. Mesmo assim, obtive resultados excelentes. Isso só seria possível se a onda sonora produzida pelo mantra tivesse impacto sobre o funcionamento cerebral. E tem! Ou seja, assim como a palavra sem significado pode ser utilizada com sucesso, o som também pode.

 

Sânscrito, o idioma da natureza

 

Parte do segredo desta charada parece estar no idioma utilizado para criação dos mantras, o Sânscrito. Segundo Gabriel Axel, especialista em neurociência e cognição, ao longo do nosso processo evolutivo o nosso sistema auditório aprendeu a processar um conjunto de sons sempre presentes na natureza, que acabaram constituindo a gramática principal da nossa percepção auditiva. Assim, mais ou menos como o sistema de localização espacial utilizado pelos morcegos, que usa sons para detectar objetos sólidos no espaço e se orientar, nosso cérebro aprendeu a usar a nossa audição para identificar e interpretar eventos que ocorrem como resultado do encontro entre dois ou mais objetos sólidos.

 

Um exemplo: imagine que você escuta o som de pneus de carro freando, seguido por um som de batida e depois a reverberação do impacto. Agora, vamos ver o que você realmente escutou: você ouviu primeiro o som do atrito entre os pneus de borracha e o asfalto (ou o deslizamento), seguido pelo som do impacto do carro com algo, seguido pelo som da reverberação do impacto. Em outras palavras, você ouviu sons isolados e, dado a sequência em que se apresentaram, você interpretou o que escutou criando uma narrativa para justifica-los.

 

Segundo o neurocientista Mark Changizi, foi buscando assemelhar-se e recriar os principais sons e eventos da natureza que os fonemas atualmente existentes nos idiomas surgiram. Mas, se todos os fonemas em todos os idiomas são, em algum nível, uma tentativa de recriação de sons e eventos da natureza, porque o uso do Sânscrito em mantras e não de qualquer outro idioma? Porque o Sânscrito é uma lingua morta, que já não é mais utilizada ativamente por nenhum povo e, como tal, não sofre mais alterações, como acontece com qualquer lingua viva. Assim, o valor vibratório de seus fonemas e palavras está preservado, o que a torna adequada para uso universal. 

 

Segundo o Dr. Douglas Brooks, que pesquisa este idioma, o Sânscrito é um conjunto de sons que comunica aquilo que a natureza nos mostra. Ou seja, ele seria a codificação dos padrões da natureza e a representação sonora de como estes funcionam. Mais ou menos como acontece quando nos imergimos em música, os mantras usam sons para evocar o movimento de energia física e emocional através da estimulação do nosso sistema nervoso central. Neste sentido, os mantras servem para formar e informar a nossa realidade física e mental, segundo aquilo que seu som evoca. E o nosso cérebro (ainda pré-histórico em muitos aspectos) reconhece tais sons e responde a eles, criando eventos e interações físicas e emocionais, antes mesmo de atribuirmos significado ao que ouvimos.

 

Ainda não está muito convencido de que o som pode formar, moldar e transformar a matéria? Então checa esse vídeo curtinho aqui sobre cimática. Se ele não te ajudar a mudar de ideia, nada ajudará.

 

Mas funciona sempre e com todo mundo?

 

Sim e não. Sim, porque em algum nível eu tenho certeza que o mantra realiza aquilo a que se propõe, que é influenciar nosso estado físico e emocional. Mas com cada pessoa a intensidade será diferente, porque o estado físico e mental de cada um, a abertura mental, a experiência pessoal e o nível de autoconsciência são diferentes. Nossa experiência determina quem somos e a pessoa que somos determina o resultado de tudo aquilo que fazemos. Não tem como fugir desta realidade.

 

Além disso, os sentimentos suscitados pelos sons e sua representação simbólica variam de pessoa para pessoa. Então, os resultados excelentes que eu obtive desde a primeira vez podem não ser facilmente replicáveis por todo mundo. Eu venho praticando meditação há dois anos e talvez tenha desenvolvido uma maior receptividade ao mantra do que alguém que não pratica meditação. Por outro lado, pessoas com mais experiência em meditação, ou com maior habilidade em trabalhar o corpo e a mente, podem obter resultados ainda melhores do que eu. Como qualquer ferramenta, os resultados dependem da habilidade de quem usa e da condição física-mental de cada um.

 

Como praticar?

 

Mantras são eficazes se recitados em voz alta, sussurrando ou mentalmente. E isso não é de surpreender: estudos demonstram a eficácia tanto do uso de ondas de ultrassom contra o crânio na alteração de estados de humor (efeito similar a recitação do mantra em voz alta) quanto do uso da imaginação para treinar a prática de esportes, o que seria equivalente a recitação mental do mantra.

 

Mas, como Coach, eu não recomendo a utilização indiscriminada de mantras para lidar com questões emocionais e psicológicas. Você deve estar se perguntando: mas porque, se não existe contraindicação? Por quê não utiliza-los para lidar com medos, frustrações, depressão, ansiedade, etc? Porque precisamos nos conhecer como seres humanos! 

 

Nosso caminho de desenvolvimento pessoal passa pelo autoconhecimento e pelo desenvolvimento da autoconsciência. A depressão, o medo, a frustração, a ansiedade, etc, são sinais do corpo e da mente de que algo não vai bem. Da mesma forma que a febre é um sinal do corpo de que há uma infecção em curso, a dor emocional é um sinal de que há algo que não está bem. Quando temos febre, tomamos um antitérmico só depois de descobrirmos aonde está a infecção, ou até conseguirmos horário com o médico para investigar melhor do que se trata. E deveríamos encarar o mantra para lidar com a dor emocional da mesma forma. É preciso explorar o que nos faz mal e porque, para descobrirmos o que precisa ser mudado para criarmos uma experiência de vida mais constante, consistente e feliz.

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