O mandado do perdão

 

Pessoas, religiões, terapeutas holisticos e tradicionais mundo afora sempre recomendam, acima de tudo, a prática do perdão. Dizem que o perdão não é para a outra pessoa, mas para a gente mesmo; que o perdão liberta enquanto o rancor aprisiona; que a raiva é um sentimento inferior que devemos evitar a todo custo porque “nos afasta de Deus”; que, em última instância, o rancor nos mantém aprisionados ao que nos machucou (e a quem nos machucou) enquanto o perdão nos emancipa. Mas será mesmo assim?

 

Embora parte desse discurso seja verdade, existe uma consequência emocional muito negativa (e geralmente não levada em conta) para o perdão que ocorre antes do tempo ou a partir de um “mandado” externo: a repressão de todos os sentimentos causados pela pessoa ou situação que pretendemos perdoar. [Leia mais sobre repressão aqui.]

 

O perdão, conforme professado pela maioria, pretende uma solução mágica para perdas, traições, decepções, mágoas, etc.: “perdoe e liberte-se da dor”. Mas não funciona assim! Toda dor é viva: ela contém em si uma energia que se não for esvaziada vai continuar ativa e presente, ainda que não estejamos conscientes dela, e vai permear as nossas ações e decisões diariamente sem nos darmos conta. O adágio popular de que o tempo cura tudo carece de embasamento empírico e científico! O tempo por si só não cura nada: o que cura é sentir a dor emocional que nos foi causada em toda sua extensão para poder elaborá-la e resignificá-la. Como fazemos quando somos feridos fisicamente, a dor emocional requer cuidado e tratamento até que ocorra a cicatrização. Assim como ocorre com a ferida física que não é tratada, se simplesmente ignorarmos a dor emocional e “entregarmos na mão de Deus” ou “exercitarmos o perdão”, o problema pode acabar se estendendo e o processo de cura (se ocorrer) pode ser muito mais longo.

 

Mas e o que dizer então do perdão? Não perdoaremos nunca? Vamos viver a vida carregando ódio e rancores em nossos corações, buscando nos vingarmos daqueles que nos feriram? De jeito nenhum! Mas o perdão precisa ser uma consequência natural do processo de elaboração do conteúdo emocional. O perdão precisa ser resultado e não causa: não posso perdoar para ficar bem emocionalmente, eu preciso perdoar porque já estou emocionalmente bem, porque pensar naquele evento (ou pessoa) deixou de ser doloroso, porque dei lugar a todas as lágrimas que quiseram rolar como consequência daquele evento e pude finalmente dar um novo sentido à aquela dor, pude encontrar um novo lugar para mim mesma na minha história depois daquela perda, porque pude me resignificar como pessoa após aquela partida.

 

Quando tivermos feito o devido luto daquela relação, daquele lugar, daquela situação ou daquela pessoa, o perdão não precisará ser imposto, pedido ou recomendado. Ele simplesmente acontecerá, até porque não haverá nada mais para perdoar. Estaremos em paz com a gente mesmo e com o outro, que era o que se buscava inicialmente com o mandato do perdão. Apenas teremos chegado a isso através de um caminho mais saudável e duradouro, embora também mais doloroso.

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