Pelo direito de nos sentirmos tristes


Em muitos dos meus atendimentos individualizados, percebo que meus clientes têm uma dificuldade muito grande em lidar com a própria tristeza. Enquanto emoção desconfortável que é, existe muita dúvida a respeito do nosso direito a esse sentimento e, com isso, a tristeza parece algo que precisa ser evitado.


O que aconteceria se nos entregássemos a ela? Choraremos eternamente? E o que isso significa a respeito da minha realidade atual? Se me entrego a tristeza, isso significa que sou ingrata e incapaz de desfrutar das coisas positivas que existem em minha vida? Mais do que isso: desde um ponto de vista metafísico, ao permitir-me dominar pela tristeza, não estarei impedindo a manifestação daquilo que desejo em minha vida, de um presente e um futuro pleno e feliz?


Temos muitas dúvidas a respeito do nosso direito enquanto sociedade de nos sentirmos tristes. Este panorama é especialmente preponderante no Brasil, enquanto país tropical, e em suas cidades litorâneas, onde estamos rodeados por paisagens maravilhosas, praias paradisíacas e (no Rio de Janeiro) sob a imagem do Cristo Redentor de braços abertos abençoando a Baía da Guanabara. Que blasfêmia nos sentirmos tristes diante de tanto a apreciar!


É importante considerar, no entanto, que desde um ponto de vista psicológico, o estado ininterrupto de felicidade é patológico. Na verdade, a felicidade patológica é chamada pela psiquiatria de mania e precisa ser tratada com medicação. Em seu contraponto, a tristeza constante e incapacitante - chamada de depressão - é igualmente patológica. No entanto, estados temporários de tristeza são normais e devem ser abraçados como tal.


Em um momento tão duro quanto o da pandemia mundial, onde a incerteza a respeito do futuro predomina e o isolamento social nos proíbe de um contato maior com nossos vínculos mais próximos, muitos meios sociais e de comunicação reforçam a necessidade do otimismo, do pensamento positivo e de uma perspectiva favorável do futuro. Nas mídias sociais predominantes continuamos linhas do tempo cheias de fotos alegres e sorridentes, frutos de recordações de um passado que - no momento - não se faz possível. Recordação e nostalgia são sentimentos saudáveis e naturais, mas me preocupa seu uso como forma de negação da angústia do momento atual. Afinal, a incerteza, tristeza e apreensão também seriam sentimentos naturais para este momento, e vemos muito pouco deles em nossos ambientes online.


Este texto não pretende ser uma apologia em busca de mais momentos tristes, mas sim busca começar um diálogo a respeito da normalização do leque de sentimentos que nós, seres humanos, somos capazes de experimentar. Ao contrário do que se pensa, desde um ponto de vista psicológico, é a permissão para sentir nossos sentimentos que faz com que eles sejam transitórios e temporários. A repressão só serve para manter qualquer sentimento com seu força original, tornando-o ainda menos administrável nos breves momentos em que este "vaza" à consciência - o que invariavelmente acontece quando menos esperamos, porque nossas defesas estão baixas.


Do ponto de vista espiritual e metafísico, sentimentos transitórios de medo, baixa autoestima, falta de confiança pessoal e tristeza são normais. Não são eles que impedem a realização dos nossos objetivos. Na verdade, são as crenças que estão sedimentadas em nosso inconsciente e que orientam o nosso comportamento que boicotam as nossas chances de sucesso todas as vezes.


Saúde mental não significa estar sempre feliz. Saúde mental pressupõe permitir-nos responder adequadamente (a nível emocional) à todas as situações que se apresentam em nossas vidas, sejam tristes, felizes, angustiantes ou temerosas. Evitar ou negar sentimentos não faz com que eles desapareçam nem nos torna imunes a eles. Pelo contrário, nos transforma em robôs, ao rejeitar o que de mais humano temos: a capacidade de analisar e aprender sobre nós mesmos a partir daquilo que sentimos.